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A hiporexia, ou diminuição acentuada da vontade de comer, é um sinal clínico que merece atenção redobrada na velhice.
Muitas famílias tendem a normalizar o facto de um idoso deixar comida no prato ou comer menos, encarando a falta de apetite como “algo próprio da idade”. Contudo, a hiporexia pode ser o início de problemas graves.
Os geriatras alertam que a inapetência a partir dos 65 anos pode ser o primeiro sinal de desnutrição, fragilidade e sarcopenia (perda de massa muscular).
Na emeis, apresentamos em seguida como abordar o idoso inapetente e que estratégias utilizar para combater o problema.
A Associação Portuguesa de Nutrição (APN) define o apetite como o “desejo consciente e selectivo de comer”. Quando estes desejos diminuem, surge a hiporexia, caracterizada pela redução persistente do apetite ou pela ingestão insuficiente de energia e proteína. Em geriatria, esta alteração é frequentemente integrada no conceito de anorexia do envelhecimento.
A European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) salienta que a redução do apetite eleva o risco de desnutrição nos idosos, sendo a causa principal em 20% a 30% dos casos. Estudos publicados na Nutrients acrescentam que um em cada três idosos pode sofrer de hiporexia.
A falta de apetite raramente decorre de um único motivo. A APN e a Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG) assinalam que a hiporexia resulta de fatores fisiológicos, médicos e emocionais:
Alterações do paladar e olfato
A perda de sensibilidade gustativa (hipogeusia) reduz o prazer de comer, sobretudo nos sabores salgados e doces.
Problemas orais e de deglutição
A perda de dentes, dores nas gengivas ou próteses dentárias mal ajustadas dificultam a mastigação. A boca seca (xerostomia) ou a dificuldade em engolir (disfagia) tornam a refeição desconfortável.
Digestão lenta e hormonas
Com o envelhecimento, o esvaziamento gástrico é mais lento e diminuem as hormonas da fome (como a grelina).
Medicamentos e doenças
A polifarmácia (anti-hipertensores, antidepressivos, analgésicos) pode alterar o sabor dos alimentos, causar náuseas ou apatia.
Depressão e isolamento
A solidão e a depressão alteram os hábitos alimentares. Comer sem companhia reduz os estímulos sociais que incentivam a refeição.
Para os familiares e cuidadores, identificar os primeiros sinais de hiporexia permite-lhes agir antes que a perda de peso afete a saúde do idoso:
Se mantida por semanas ou meses, a hiporexia leva a consequências graves:
Desnutrição e sarcopenia
A DGS e a Ordem dos Nutricionistas alertam que a menor ingestão proteico-energética acelera a perda de massa e força muscular, aumentando o risco de quedas.
Fragilidade e menor imunidade
Menor capacidade de recuperação, maior suscetibilidade a infeções e cicatrização lenta.
Complicações metabólicas
A fraca ingestão de líquidos e nutrientes pode agravar desequilíbrios eletrolíticos, como a hiponatremia em idosos, provocando confusão mental e fraqueza acrescida.
Deterioração cognitiva
Agravamento do declínio cognitivo em doentes com demência.
Segundo o consenso europeu e os critérios da GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), perder mais de 5% do peso em 3 a 6 meses é um indicador de malnutrição no idoso.
A hiporexia exige estratégias que aumentem o valor nutricional sem aumentar o volume do prato. A DGS e a APN recomendam:
Refeições pequenas e frequentes
Evite pratos grandes. É melhor oferecer pequenas porções a cada 2 ou 3 horas (três refeições principais e três snacks) para aumentar a ingestão de alimentos sem esforço.
Dê prioridade à proteína desde o início
A proteína ajuda a manter a força muscular. Comece a refeição com proteína (ovo, peixe, frango desfiado, queijo fresco, iogurte ou puré de leguminosas) para assegurar a ingestão antes da saciedade precoce.
Enriquecer as preparações
Melhore o valor nutricional adicionando azeite virgem extra, queijo ralado, ovo cozido picado, leite em pó ou puré de leguminosas às sopas.
Alimentos energéticos
Aposte em batidos, sopas encorpadas e alimentos de alta densidade (iogurte grego, requeijão, frutos secos, leite gordo). Um excelente exemplo para estimular a fome e integrar proteínas, fruta e gorduras saudáveis é o batido de banana, iogurte, cacau e leite em pó. Para mais ideias nutritivas, consulte o guia prático da Associação Portuguesa de Nutrição.
Evitar as bebidas durante as refeições
A água enche o estômago e reduz o apetite. Ofereça-a antes ou depois. A ESPEN recomenda 1,6 L/dia de líquidos para mulheres e 2,0 L/dia para homens, fora das refeições.
Comida atrativa e ambiente agradável
Melhore a apresentação do prato com cores variadas e temperos suaves (ou alimentos frios, caso haja alteração do paladar). Comer num ambiente calmo, sem pressa e acompanhado ajuda a estimular o apetite.
Se o idoso perder peso ou passar mais de 24 horas sem comer, consulte o médico de família ou nutricionista para avaliar a necessidade de Suplementos Nutricionais Orais (SNO) ou tratar patologias de base.
Esteja atento a sinais de alarme na hiporexia, como disfagia (dificuldade em engolir), dor abdominal, náuseas, confusão mental ou sinais de desidratação.
Fontes consultadas: